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Agrotóxicos: é alarmante!

30 de janeiro de 2020
O Brasil registrou recentemente a morte de milhões de abelhas, possivelmente em decorrência do uso de pesticidas na agricultura. 

• O Brasil é reconhecido como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo desde 2008, o que tem resultado em significativa contaminação ambiental. A última década tem visto uma explosão de novos registros de pesticidas, primeiro no governo de Michel Temer (451 novos agrotóxicos em 2018), e agora no de Jair Bolsonaro (474 produtos em 2019).

• Embora pesquisas sejam escassas, evidências apontam para os danos dos agrotóxicos à vida selvagem, incluindo a morte de 500 milhões de abelhas em quatro estados brasileiros entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. Outro relatório revelou que 40% das amostras coletadas de 116 antas no Cerrado estavam contaminadas com inseticidas, herbicidas e metais pesados.

• Altas concentrações do inseticida carbamato Aldicarb foram detectadas em 10 das 26 amostras de conteúdo estomacal dos animais. Como as antas preferem a vegetação nativa às plantações, isso sugere que a pulverização aérea – com resíduos carregados pelo vento – pode ser responsável pela dispersão do agrotóxico das lavouras para as áreas naturais.

O governo Bolsonaro e a bancada ruralista no Congresso estão agindo rapidamente para desregular os agrotóxicos, fazendo pressão sobretudo para aprovar o projeto de lei 6299/2002, apelidado de “PL do Veneno” pelos críticos. Ele transferiria a regulamentação dos agrotóxicos para o Ministério de Agricultura, uma mudança que os analistas consideram um grave conflito de interesse.

ENTENDA

A explosão de aprovações de agrotóxicos começou durante o governo de Michel Temer, em 2016, quando o lobby ruralista do agronegócio conquistou grande influência dentro do governo. Naquele ano, o número saltou para 277 registros, comparado a 91 em 2005, por exemplo. Em 2017, um total de 405 agrotóxicos foram aprovados; em 2018, outros 451, de acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
De acordo com um levantamento do jornal Folha de S.Paulo, dos 96 ingredientes ativos que compõem os agrotóxicos liberados até setembro deste ano, 28 não são registrados nem comercializados na União Europeia (29%) e 36 não estão disponíveis na Austrália (37%). Entre os ingredientes ativos aprovados este ano no Brasil está o dinotefuran, um inseticida classificado como extremamente tóxico. Ele não está registrado na União Europeia, mas é vendido nos Estados Unidos.

Agrotóxicos genéricos representam até agora a maioria das aprovações do governo Bolsonaro. De acordo com o Ministério da Agricultura, o objetivo da liberação é reduzir o preço dos produtos, o que por sua vez diminui o custo da produção. Em Mato Grosso, maior produtor de grão do país, os agrotóxicos respondem por 22% dos gastos com o cultivo de soja.
No ano passado, a agricultura brasileira usou 549.200 toneladas de agrotóxicos, de acordo com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Desse total, 195 mil toneladas foram de glifosato, mais conhecido como o herbicida Roundup, produzido pela Bayer/Monsanto. O produto foi banido na Áustria este ano e será proibido na Alemanha em 2023.

Em fevereiro passado, o Brasil chegou a uma conclusão controversa. Depois de terminar uma reavaliação toxicológica do produto, os reguladores brasileiros disseram que o glifosato, embora apresente “um risco maior para os trabalhadores rurais e para as pessoas que vivem próximas às áreas [agrícolas]”, não faz mal àqueles que consomem os produtos tratados com o herbicida em doses aceitáveis.
O glifosato é o agrotóxico mais amplamente utilizado no Brasil, mas é classificado pela Iarc (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), da Organização Mundial da Saúde, como pertencente à categoria 2, ou “provavelmente carcinogênico em humanos”. No final de março de 2019, um tribunal federal dos EUA concedeu uma indenização de US$ 80 milhões (R$ 325,76 milhões) a um jardineiro que atribuiu ao uso intensivo de Roundup o desenvolvimento de um câncer, num caso que o juiz descreveu como um importante precedente.

VIDA SELVAGEM EM PERIGO

Embora a aprovação de agrotóxicos no Brasil tenha ultrapassado em muito a capacidade dos cientistas de estudar os impactos sobre a população, os habitats e a vida selvagem, há evidências perturbadoras de que ela é preocupante.

A exposição a agrotóxicos que contêm neonicotinoides e fipronil causaram a morte de mais de 500 milhões de abelhas em quatro estados entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, de acordo com uma investigação da Agência Pública e da Repórter Brasil.

Um relatório técnico divulgado em 2018 revelou que antas-brasileiras (Tapirus terrestris) do Cerrado sul-matogrossense vem sofrendo de contaminação por vários tipos de agrotóxicos. O estado é um local de rápida expansão das lavouras do agronegócio, que produzem quantidades imensas de soja, milho e cana-de-açúcar.

A pesquisa, realizada ao longo de um período de dois anos entre 2015 e 2017, numa área de 2.200 km² nos municípios de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina, foi conduzida pela Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (Incab), do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ).
Os cientistas descobriram que 40% das 242 amostras coletadas de 116 antas vivas e mortas (sobretudo em acidentes rodoviários dentro da área do estudo) estavam contaminadas com resíduos de 13 produtos tóxicos – incluindo nove inseticidas e herbicidas, além de quatro metais pesados usados em fórmulas para correção do solo agrícola e outros fins.

Os resíduos tóxicos foram encontrados nos coxins (parte almofadada da pata dos animais), probóscide (focinho), estômago, fígado, sangue, ossos e unhas. De acordo com os pesquisadores, a detecção desses agentes indica que as antas estão sendo expostas a substâncias tóxicas por meio do contato direto com plantas, solo e água contaminados.
“Em condições normais, a anta não costuma deixar o seu habitat natural, geralmente uma área de cerca de 500 hectares de extensão. Uma vez que o Cerrado não tem mais áreas de vegetação nativa devido ao desmatamento, o mamífero precisa se deslocar e atravessar plantações para buscar comida”, explica Patrícia Medici, coordenadora do Incab/IPÊ.

Fonte: https://contraosagrotoxicos.org/
Texto: por Jenny Gonzales, via Mongabay
Foto: Pixabay

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