O Fórum Estadual da Cáritas RS foi como uma golfada de esperançar ao final de 2024, quando a as águas dos rios cobriram cidades, destruindo plantações, derrubando casas, sonhos e lembranças, levando pessoas e animais, naquela que foi considerada a maior tragédia socioambiental do Rio Grande do Sul desde 1941. Realizado nos dias 27 e 28 de novembro de 2024, na Casa de Retiro Vila Betânia, em Porto Alegre (RS), o Fórum buscou fortalecer a identidade de pertencimento de agentes, voluntários/as e colaboradores/a à Rede Cáritas. Foi um encontro de afetos, conforto e compartilhamento de sentimentos e vivências. Um momento de parar, respirar e juntar forças para planejar estratégias de enfrentamento aos desafios a seguir.
Por meio de místicas, e em rodas de conversas e reflexões, foi feita uma minuciosa análise sobre a missão Cáritas RS no contexto atual, considerando as atividades já em andamento e as perspectivas de novos projetos, como o “Projeto de Ação Emergencial da Cáritas em Rede no RS e a Crise Socioclimática” (EA) que vai se estender por 2025.
O encontro contou com a participação de Marcio Adriano Lima Camargo (na foto abaixo), assessor da área de Meio Ambiente, Gestão de Riscos e Emergências (Magre) da Cáritas Brasileira, que apresentou um histórico das causas e consequências das emergências climáticas em todo o mundo. E de Danilo Borges e Silva de Araújo, assessor de Comunicação da Cáritas Brasileira, que esteve no RS em maio de 2024 auxiliando na divulgação dos atendimentos às famílias atingidas pelas inundações, e deu um depoimento a respeito das situações que presenciou.
Um dos temas discutidos no Fórum foi como intensificar o trabalho de base junto às comunidades para que se tornem mais seguras frente às emergências socioclimáticas. O objetivo é incentivar a incidência política, para que, entendendo as causas das tragédias, reivindiquem a ação efetiva do Estado na prevenção e atendimento de cada caso, com políticas públicas. “As decisões têm que ter a participação das comunidades. A proposta do Magre é trabalhar com comunidades conscientes, organizadas para gestão de riscos”, disse Jacira Teresinha Dias Ruiz, secretária regional da Cáritas RS.
No final do primeiro dia de Fórum, Eliane Almeida Pereira Brochet (na foto acima), do secretariado regional, falou sobre o Programa de Roupas, explicou como contribui para a sustentabilidade da Cáritas RS, e apresentou a equipe do Bazar Solidário. Em grupos, junto com integrantes da equipe do Bazar, os/as participantes responderam à pergunta: “Como o Programa de Roupas nos ajuda a cumprir a missão da Cáritas?”, o que resultou em uma reflexão apresentada na forma de cartazes com colagens.
Emoções são bem-vindas!
O Fórum foi um espaço acolhedor para ouvir e ser ouvido/a com a ajuda da assistente social Jocelei Teresa Bresolin. Juntos, em roda, pouco a pouco foram fluindo em palavras os dramas de quem foi testemunha e/ou participante, durante e após as inundações de abril e maio de 2024. E assim foram se revelando imagens, sons, dores, medos, forças, aprendizados sobre os acontecimentos, como os relatados a seguir:
“A gente sempre fala de se colocar no lugar do/a outro/a. Saí no último minuto (da paróquia), porque não acreditava que a água fosse entrar ali. Agora entendo por que as pessoas demoram a sair”, observou o Padre Flávio Corrêa de Lima, diretor da Cáritas Diocesana de Novo Hamburgo (RS).
“Nós, da Cáritas, enxergamos muita coisa que as pessoas não enxergam no dia a dia: famílias que vivem na pobreza, adoecimento pela fome, inclusive mental. Com as enchentes, as pessoas foram para abrigos, e aí a sociedade as enxergou. Essas pessoas diziam que não queriam voltar para casa, onde não tinham alimento, roupas, atendimento médico e psicológico, que são direitos, mas elas não têm acesso”, comentou Márcia Lemos de Almeida, da Cáritas Arquidiocesana de Pelotas.
“Um sinal de esperança veio através das campanhas, pelo carinho das crianças que prepararam cartinhas e embalaram seus brinquedos para dar para quem estava em abrigos. São sinais que alegram, porque indicam que o ser humano não perdeu o seu olhar solidário. As crianças nos trazem alegria e a certeza de que é possível mudar esta realidade”, disse Nilza Mar Fernandes de Macedo, da Cáritas Diocesana de Bagé.
“A primeira sensação foi de medo pelo que estava vindo, de estar fora de casa, sem ter opção, porque minha casa também ficou debaixo d’água. Depois, veio a sensação de acolhida – fiquei 33 dias na casa de uma colega, Marisa, que me abriu as portas, o que é diferente de estar em abrigos. E tem a Rede Cáritas. Me ligavam, perguntando: “como tu estás”? Estar em rede te dá forças. Quando o pessoal da Cáritas dos Estados Unidos chegou a Canoas (RS), na semana seguinte à tragédia, a gente estava desbando. Não tenho palavras para dizer o que significou terem vindo. A gente sente como deve ser para as outras pessoas. Ao entregar as doações, se vê que muitas casas já eram precárias”, falou Roseli Pereira Dias, da Cáritas Regional RS.
“Começamos a fazer marmitas para distribuir nas vilas, porque percebemos que estava desorganizado. Pessoas de todo o Brasil mandaram carretas com água, alvejantes, entre outros produtos, foi tudo direto para o Projeto Esperança. O povo percebeu que a gente deixava as pessoas escolherem o que mais necessitavam. Como é importante deixar elas escolherem! Por que somos escolhidos? Porque fazemos o que nossa moral manda, nossa ética, assumindo uma posição dentro dos trabalhos nos momentos de crise”, avaliou Begair do Carmo Flores, da Cáritas Arquidiocesana de Santa Maria.
Jocelei (na foto acima, à esquerda) resumiu: “Estamos ainda em tempo de reconstrução, tem muita caminhada pela frente”. Ela mencionou a necessidade de as comunidades fazerem planos de contingência, para identificar, por exemplo, rotas de fuga, e de as famílias também se prevenirem para resguardar documentos valiosos. “Há muito a fazer e é preciso se preparar, mas tem que ter o tempo para se recuperar também”, repetiu.
Tudo começa na realidade
Dom Sílvio Guterres Dutra, Bispo Diocesano de Vacaria e Referencial da Cáritas RS, trouxe elementos bíblicos-teológicos para ajudar agentes, voluntários/as e colaboradores/as da Cáritas RS a compreenderem “os sinais dos tempos”. O tema de sua apresentação foi: “O que Deus pode estar nos pedindo a partir da realidade socioclimática no Estado e do compromisso da Missão Institucional da Cáritas Brasileira?”
Dom Sílvio (na foto acima) lembrou que o Papa Francisco sugere concentrar-se no “pequeno”. E recordou o que dizia a irmã Lourdes Dill: “Muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, mudarão a face da Terra”. Outro aspecto que o Papa sugere, disse Dom Sílvio, é se manter em contato com a realidade, e “quanto mais perto da realidade, mais chance a gente tem de fazer uma mudança substancial na vida da gente”. Segundo o Papa, “todo toque é uma necessidade profundamente humana”. O Papa fala muito em tocar a ferida de Cristo que está no nosso irmão sofredor, explicou Dom Sílvio. E acrescentou: é preciso investir em ações positivas, por mais que a onda possa ser para o outro lado.
No encerramento do encontro, foram apresentadas as sínteses cumulativas do Fórum, os planejamentos de atividades, e foi definida uma agenda mínima comum das Cáritas Arqui/diocesanas para 2025. A mística final, à luz das velas da Campanha “10 milhões de estrelas” (na foto acima), retomou a ideia inicial de que somos todos e todas parte da Natureza. E que, mais do que nunca, devemos acender as luzes, alargar as tendas e acolher quem precisa. (inserir galeria de fotos do encontro)