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Manifesto da 47ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul: Reconstruir e Cuidar da Casa Comum

Áreas de Atuação

A 47ª Romaria da Terra do RS reuniu cerca de 10 mil pessoas em Arroio do Meio, região que foi atingida pela catátrofe climática em 2024

Publicação: 06/03/2025


A 47ª Romaria da Terra do RS foi realizada em Arroio do Meio, na região do Vale do Taquari (RS), no dia 4 de março de 2025. Ao longo do dia, romeiros e romeiras percorreram locais atingidos pelas enchentes de 2024, recordando nomes de pessoas que morreram no desastre,  testemunhando o esforço de reconstrução e reforçando a fé e a esperança na luta conjunta por moradia digna, água e demais direitos de todas e todos. 

Na foto acima, em primeiro plano, a pedra de uma tonelada que deslizou em Roca Sales. matando seis pessoas, e que foi colocada na entrada da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes, também afetada pelas águas. Foram colocados numa cruz os nomes de quem perdeu sua vida nas enchentes, em memória às vítimas. 


 “A Romaria da Terra é sempre uma oportunidade para celebrar a caminhada de fé e de luta, como pessoas que procuram seguir as pegadas do Cristo Sofredor e Ressuscitado. Nesta 47ª edição, pisamos em uma terra sofrida, contemplando contextos de destruição deixados pelas recorridas enchentes dos dois últimos anos”, disse Jacira Teresinha Dias Ruiz, secretária executiva da Cáritas Regional RS. “Certamente estaremos também renovando o compromisso profético de trabalhar por condições dignas de vida para todas as pessoas, de lutar pelos direitos de quem sofre as consequências da emergência climática e de cuidar da Casa Comum, entre outros compromissos, pois a luta por justiça social e climática deve ser decorrência de nossa fé”, acrescentou. 

Para Jacira (com o microfone, na foto acima) a 47ª Romaria da Terra também é lugar de encontros e reencontros, para celebrar a amizade, a fé e a solidariedade tão forte e determinante nos momentos de desastre. “Participar da Romaria é uma forma de bem iniciar a Quaresma na quarta-feira de cinzas, que neste ano nos convoca para caminhar rumo à “Ecologia Integral: porque Deus viu que tudo era bom”, afirmou.

Agentes das Cáritas Arqui/Diocesanas e do Secretariado Regional da Cáritas RS estiveram presentes na 47ª Romaria da Terra,  destacando a Missão Sementes de Solidariedade, tão importante para a reconstrução da região. Vestindo a camiseta com o símbolo da MIssão estavam também voluntários e voluntárias. 



Ao longo da caminhada, houve paradas para observar áreas destruídas pelo desastre socioambiental de 2024: casas, escola, igrejas, posto de saúde. Marcas vermelhas nos prédios indicavam a altura que chegou a água. Restos de móveis e madeiras ainda dependurados nos galhos de altas árvores deram a dimensão da tragédia. Ao final do encontro, foi divulgado o Manifesto da 47ª Romaria da Terra do RS, que diz o seguinte:



Reconstruir e Cuidar da Casa Comum

"Estamos vivenciando o Vale das Lágrimas,feridas e sofrimento nas lutas travadas nestes rincões gaúchos: Vale do Taquari, do Jacuí, do Rio Pardo, do Guaíba e da Lagoa dos Patos.  Um chão sagrado, com feridas vivas deixadas por eventos climáticos extremos. 

Nesta Romaria da Terra e da vida, vimos braços estendidos sustentando homens e mulheres, crianças e idosos, comunidades e povos, rios e montanhas. 

Abraçamos as criaturas que nos cercam e somos abraçados por elas. Compreendemos que Deus vê e ouve tudo e não fica indiferente. Deus não se conforma com uma Terra onde sobem gritos, lamentos e clamores. Deus não quer que os Vales do nosso Estado sejam vales de lágrimas. Ele não quer ver o fruto do suor do seu povo engordar as contas bancáriasde poucos. Ele não quer a terra devastada por um sistema produtivo agressivo e destruidor. Deus confia a nós sua decisão e seu desejo de fazer novos os Céus e aTerra. Uma nova Humanidade e uma nova Sociedade. 

Deus quer ver a Terra viva e os agricultores desfrutando daquilo que plantam!

As mudanças climáticas representam um dos maiores desafios do nosso tempo e exigem uma resposta coordenada e eficaz por parte dos poderes públicos. 

Temos diante dos olhos as marcas da destruição que, como parte da humanidade, ajudamos a provocar, ae mesmo pela nossa omissão. Temos na memória a experiência milenar das comunidades cristãs e do Deus Criador e Cuidador...

Por isso, assumimos como compromissos decorrentes da nossa fé:

- manter viva a memória das vítimas das catástrofes ambientais que perderam a vida ou foram gravemente atingidas;

- ampliar e dinamizar as redes de apoio e solidariedade que se evidenciaram durante as catástrofes;

- percorrer um caminho decidido e coerente de conversão ecológica, de cuidade e defesa da ecologia integral, que se impõe com a luta por justiça social e ambiental;

- despertar nossas comunidades e lideranças eclesiais e políticas para a urgência de medidas concretas de reconstrução e cuidado da Casa Comum e de defesa e consolidação da democracia, participando ativamente de espaços de controle social ativo;

- ocupar os espaços públicos de participação e controle social, como conselhos de políticas públicas, conferências, fóruns de debates, audiências públicas, para garantir que as políticas públicas enfrentem com seriedade as emergências climáticas e as desigualdades sociais e econômicas mediante propostas e orçamentos claros;

- desenvolver novas formas de agricultura saudável, articuladas com a luta pela segurança alimentar e pela preservação do meio ambiente, e intensificar as lutas por um acesso democrático à terra;

- exercitar um estilo de vida mais simples e sóbrio, combatendo o consumismo doentio e a produção excessiva de resíduos ou descartes. 

Na Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco destaca que a crise ecológica está interligada com a crise social e, portanto, exige um compromisso coletivo, que inclui tanto a participação ativa da sociedade civil, quanto a implementação de políticas púiblicas eficazes. 

Queremos ser ouvidos e colaborar com os poderes públicos na construção de um projeto de curto, médio e longo prazo, que resolva o problema das enchentes na região dos Vales e da Lagoa dos Patos. 

Permanecer omisso ou indiferente diante das crises que afetam a Terra e a humanidade é um pecado individual que existe conversão e reparação em toda a sociedade."







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