Delegadas e delegados da 4ª Conaes-RS
A 4ª Conferência Estadual de Economia Popular e Solidária (Conaes) do Rio Grande do Sul, realizada nos dias 28 e 29 de março, na Escola Técnica Mesquita, em Porto Alegre, reuniu quase 300 delegados e delegadas em um encontro marcado pela emoção e resiliência. As reuniões preparatórias mobilizaram 58 municípios de oito regiões do Rio Grande do Sul em 14 conferências, num esforço em meio aos dramas causados pela tragédia socioambiental que atingiu fortemente o Estado em maio de 2024. Ao final do encontro, foram eleitos/as 84 delegadas e delegados e 52 suplentes que levarão para a Conferência Nacional, a ser realizada em agosto, em Brasília, as propostas de artesãs e artesãos, catadores/as, agricultores/as, gestores/as, cooperativas, associações, e demais coletivos e entidades representativas da Economia Solidária no Rio Grande do Sul.
Estiveram presentes na 4ª Conaes-RS delegações de Santana do Livramento, Pelotas, Santa Maria, Passo Fundo, Caxias do Sul, Torres, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Guaíba, Gravataí, Alvorada, Viamão e Porto Alegre. Durante os dois dias foram discutidos temas considerados essenciais para a Economia Popular e Solidária, como a necessidade de parcerias com os poderes públicos estadual e federal, a criação de meios de acesso a crédito, fomento ao consumo responsável e a uma cultura de sustentabilidade, e a importância de implementar efetivamente políticas públicas para a coleta seletiva e educação ambiental. Para chegar às propostas finais que serão levadas à etapa nacional, os/as delegados/as foram divididos em grupos, que refletiram sobre cinco eixos: análise da realidade; realidade socioambiental, cultural, política e econômica; produção, comercialização e consumo justo e solidário; financiamento, créditos e finanças solidárias; e educação, formação e assistência técnica.
"A construção desta Conferência Estadual contou com muitas mãos calejadas na construção deste novo jeito de fazer economia. Foi um trajeto impressionante, feito com muita garra, após a maior catástrofe que vivemos no Estado. Praticamente sem recursos, se mobilizou quase mil pessoas nas regiões e quase 300 delegados nos dias 28 e 29. É mais um feito pra ficar na história da Economia Popular e Solidária no Rio Grande do Sul”, disse Roseli Pereira Dias, da Cáritas Regional RS, que participou da organização do evento.
Roseli Pereira Dias (na foto acima), da Cáritas RS, participou da organização do evento e da coordenação das mesas
Na mesa de abertura, o secretário Gilberto Carvalho (na foto abaixo, da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes), enfatizou a importância de realizar a 4ª Conaes no RS: “Eu fiz questão de marcar a minha vinda aqui como sinal de nossa solidariedade e reconhecimento pelo heroísmo de vocês, que passaram por tantas dificuldades e estão de pé, com as enchentes, a ausência de apoio”. Segundo Carvalho, os coletivos da Economia Popular e Solidária devem ser como faróis que ajudem a iluminar e a mostrar para as pessoas como é possível ajudar o povo se organizar e a mudar a sua própria vida. “Temos que romper qualquer preconceito de diálogo. Vamos esclarecer e fazer alianças. O nosso projeto é um projeto de humanidade acima de tudo, de valores éticos”, explicou. E acrescentou: “Economia Solidária, definitivamente, não é coisa de gente pobre que quer continuar pobre, é de gente que quer mudar a sua vida coletivamente, solidariamente. Por isso é que investimos também no Projeto Paul Singer, que agora em maio vai colocar 500 agentes da Economia Solidária espalhados pelo país para nos ajudar a fazer esse trabalho de território”. Durante a Conferência, Carvalho fez uma apresentação da conjuntura nacional e da situação da Senaes.
Gilberto Carvalho, da Senaes, fez um chamado para o diálogo e apresentou o Projeto Paul Singer de Formação de Agentes Territoriais
Os educadores populares Claudio Nascimento e André Mombach, ambos integrantes da equipe do Programa de Formação Paul Singer – Agentes de Economia Popular e Solidária, coordenaram a discussão de um dos eixos da conferência. Nascimento também explicou como vai funcionar o Programa Paul Singer nos territórios, utilizando a metodologia da Educação Popular.
Nelsa Nespolo, presidenta da Central de Empreendimentos Econômicos Solidários no Rio Grande do Sul (Unisol RS) e da Cooperativa Justa Trama, lembrou que a Economia Solidária tem cara de mulher e que muita gente que estava na Conferência viu suas casas invadidas pelas águas e teve seus instrumentos de trabalho perdidos durante as enchentes de 2024. “Nós ajudamos a recuperar esse Estado, a atender as famílias fragilizadas. Trabalhar de forma coletiva e construir uma outra economia dentro de um mercado que nos oprime não é fácil, mas a gente acredita em um outro desenvolvimento, em um planeta mais cuidado. Trabalhamos com a reciclagem, com produtos saudáveis, com a agroecologia como centro”, falou Nelsa, salientando que a Unisol vai completar 30 anos de atividade cooperativada em 2026.
Acima, a mesa de abertura da Conferência do RS
Além de Carvalho e Nelsa, integraram a mesa de abertura do Conaes a assessora da Secretaria-Geral da Presidência da República, Dora Sugimoto, o secretário de Trabalho e Desenvolvimento Profissional (STDP/RS), Gilmar Sossella, a deputada federal Maria do Rosário, o presidente do Conselho Estadual de Economia Solidária (CESOL/RS), Luis Fernando Rosa, o presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Economia Solidária na Assembleia Legislativa do RS, deputado estadual Zé Nunes, a coordenadora Executiva do Fórum Gaúcho de Economia Solidária, Maribel Kauffmann (FGEPS), o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Porto Alegre (STIMEPA), Adriano Souza Filippetto, e a doutora em Ciências Sociais e professora adjunta da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ana Mercedes Sarria Icaza.
Secretário Sossella falou sobre a importância de reativar o Conselho e de construir políticas públicas específicas
“Depois de nove anos, reativamos o Conselho e esta conferência vai ser fundamental para discutirmos uma política pública nacional para a Economia Solidária. Estamos juntos na luta!”, enfatizou Sossella. “Estou feliz que estamos retomando o Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos e Solidários (Cadsol) para identificar os empreendimentos, onde estão, e a partir disso estabelecer um orçamento público como deve ser, com a importância que a Economia Solidária deve ter dentro do Governo do Estado e também no Governo Federal”, disse Rosa.
Equipe de Coordenação da 4ª Conaes-RS
Maribel, do FGEPS, ressaltou que as Conferências são um espaço essencial de participação social, de resistência e de preservação da democracia. “Com tudo o que nós passamos, em especial aqui no Estado, de seca, ciclone extratropical, enchentes, ventanias e temporais, não há mais como deixar de discutir todos os temas e ações que transpassam a nossa vida”, avaliou. Disse que o Estado precisa retomar a discussão da legislação sobre Economia Solidária que está vigente, mas não está sendo executada. “Precisamos de recursos, porque só ter uma lei não resolve, tem as compras coletivas, a certificação dos empreendimentos, o apoio a feiras e eventos, esse é um legado a ser revisto e colocado em prática”, observou. Ela reforçou também a demanda por uma disciplina de Economia Solidária nas escolas, para que se passe a educar para a cooperação, e não para a competição. E completou: “A gente quer que a nossa 4ª Conferência Nacional aponte para ter recursos no orçamento da Senaes, porque estamos sobrevivendo a partir de emendas parlamentares, mas elas acabam sendo uma distorção - o orçamento é público, então ele tem que chegar para todos e todas”.
A 4ª Conaes teve a coordenação do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes), e do Conselho Nacional de Economia Popular e Solidária. Foi convocada no RS pelo Conselho Estadual de Economia Solidária (Cesol) e estruturada através da Comissão Organizadora Estadual, contando ainda com vários apoiadores locais e estaduais, entre eles a Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Profissional do Rio Grande do Sul (STDP).
(Texto de Clara Glock, integrante do Programa Paul Singer e da Cáritas RS, em parceria com Anahi Fros, da Semeadora Comunicação. Crédito de fotos: Cáritas RS/Divulgação)